Fotografia Estenopeica "Pinhole" é a fotografia sem lentes. Um pequeno orifício (buraco da agulha - "pin hole") substitui a lente. A luz passa através do orifício; uma imagem forma-se na câmara.
quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018
Bandar e Laft, Hormozgan, Irão.
A verdade terá necessariamente de ser contraditória. Seria uma contradição se assim não fosse.
Afonso Cruz in "Jalan Jalan"
rainbow mountains, ilha de Hormuz, Irão.
As pessoas preferem uma impossibilidade credível a uma possibilidade inverosímel, disse Aristóteles.
Afonso Cruz in "Jalan Jalan"
domingo, 4 de fevereiro de 2018
Irão, Dasht-E Lut, nascer do sol nos Kaluts
O mundo punha-se de pé e rugia em apreciação. Arranha-céus e fábricas de aço nasciam onde antes haviam florestas, os rios eram engarrafados e vendidos em supermercados, os peixes enlatados, as montanhas mineradas e transformadas em mísseis reluzentes. Barragens gigantescas iluminavam as cidadescomo árvores de Natal. Toda a gente estava contente.
Arundhati Roy in "O Ministério da Felicidade Suprema"
sábado, 2 de dezembro de 2017
Irão, Dasht-E Lut, pôr do sol nos Kaluts
Fico Sozinho com o Universo Inteiro
Começa a haver meia-noite, e a haver sossego,
Por toda a parte das coisas sobrepostas,
Os andares vários da acumulação da vida...
Calaram o piano no terceiro andar...
Não oiço já passos no segundo andar...
No rés-do-chão o rádio está em silêncio...
Vai tudo dormir...
Fico sozinho com o universo inteiro.
Não quero ir à janela:
Se eu olhar, que de estrelas!
Que grandes silêncios maiores há no alto!
Que céu anticitadino! —
Antes, recluso,
Num desejo de não ser recluso,
Escuto ansiosamente os ruídos da rua...
Um automóvel — demasiado rápido! —
Os duplos passos em conversa falam-me...
O som de um portão que se fecha brusco dóí-me...
Vai tudo dormir...
Só eu velo, sonolentamente escutando,
Esperando
Qualquer coisa antes que durma...
Qualquer coisa.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
domingo, 26 de novembro de 2017
Irão, Dasht-e Kavir, o grande deserto salgado
Alguém bateu à porta da Bem-Amada, e uma Voz lá de dentro perguntou:
- Quem está aí?
E ele respondeu - Sou eu.
A Voz então disse:
- Esta casa não conterá nós dois.
E a porta continuou fechada. Então o Amante foi para o deserto e na solidão jejuou e orou. Retornou depois de um ano e bateu novamente à porta. E de novo a Voz perguntou:
- Quem é?
E o Amante respondeu:
- És tu mesma!
E a porta lhe foi aberta.
Rumi (Mestre Sufi do sec. XII)
sábado, 25 de novembro de 2017
torres do silêncio, Yazd, Irão
As Torres do Silêncio (também conhecidas como Cheela Ghar ou Dakhma) são construções em forma de torre circular que possuem usos e simbologias funerárias para os adeptos do zoroastrismo, uma religião fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra, a quem os gregos chamavam de Zoroastro, sendo considerada a primeira religião monoteísta.
Algumas das suas concepções religiosas, como a crença no paraíso, na ressurreição, no juízo final e na vinda de um Messias, viriam a influenciar o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.
Zaratustra foi um sacerdote ariano que viveu por volta de 600 a.C. e o zoroastrismo era uma versão reformada da fé ariana, que acentuava o princípio do dualismo – o eterno conflito entre o criador Ahuramazda e o seu adversário Ahriman, entre o bem e o mal, a verdade e a falsidade.
O Zoroastrismo acredita que a morte é um triunfo temporário do mal sobre o bem. Correndo dentro de corpo morto (nasu), há uma divindade, um demônio (Natu Daeva) que contamina tudo em que entra em contato, como a carne, cabelo, unha e ossos e que por isso um corpo morto é tão imundo que pode poluir tudo que toca. Existe um conjunto de regras, para descartar o cadáver da forma mais segura possível. Como os elementos naturais: terra, ar e água são sagrados, os cadáveres não podem ser enterrados ou atirados à água. A cremação também é proibida, porque o fogo é a origem direta da divindade Natu Daeva.
O funeral inicia-se com a lavagem do cadáver com a urina de um touro, feita por pessoas conhecidas como nasellares, algo como “cuidadores da imundice”. Uma vez “limpo”, o corpo é depositado numa espécie de altar de pedra iluminado por uma fogueira para ser inspecionado por um “Saglid”. Um cão, que segundo a crença é capaz de farejar a presença de maus espíritos capazes de se alojar nos restos mortais. O Saglid seria capaz de detectar qualquer impureza presente, o que tornaria necessário lavar novamente o corpo até ele estar purificado. O cão é trazido no mínimo cinco vezes ao longo de três dias. Apenas depois disso, o cadáver pode ser levado (à luz do sol) para um dakhma.
Os corpos são então expostos às aves de rapina e, assim, devorados num último acto de caridade e os seus espíritos podem viajar, levados pelos raios do sol. Mais tarde, descarnados e esbranquiçados, os ossos são lançados num poço existente no centro das torres de Silêncio, onde é adicionado cal para permitir que eles se desintegrem gradualmente. A prática de exposição dos mortos ao sol, conhecido como dokhmenashini, foi documentada pela primeira vez em meados do século 5 por Heródoto, mas o uso de torres apenas se verificou muito mais tarde, no início do século 9.
As torres são razoavelmente uniformes na sua construção, tendo um telhado quase plano, com o perímetro a ser ligeiramente maior do que o centro. O teto é dividido em três anéis concêntricos: Os corpos dos homens estão dispostos em torno do anel exterior, as mulheres no segundo círculo, e as crianças no anel central interno. Os fluidos saídos dos corpos são escorridos em canaletas e passam por diversos filtros com carvão e areia, antes de serem eventualmente despejados em lugar especifico, abaixo das torres.
A antiga prática sobreviveu entre os zoroastristas ortodoxos no Irão até que os dakhmas foram declarados uma ameaça à saúde e se tornaram ilegais na década de 1970. Ainda é praticada na Índia, por pessoas conhecidas como ‘parsi‘, que constituem a maior população de zoroastristas no mundo. A urbanização das cidades tem colocado pressão sobre os parsis e dificuldades em continuar com o ritual da utilização das dakhmas para a desintegração dos corpos, mas a maior ameaça à dokhmenashini, não sãoas autoridades de saúde ou dos protestos de pessoas e ONGs, mas sim a falta de abutres.
Os abutres desempenham um papel importante na desintegração dos corpos, porém, a população destas aves tem diminuído na Índia desde os anos 1990. Descobriu-se que uma droga administrada no gado era fatal para os abutres que se alimentavam das carcaças. A droga foi proibida pelo governo indiano, mas a população de abutres ainda está longe de ter recuperado. Sem abutres, foram instaladas em algumas Torres do Silêncio, concentradores de raios solares para acelerar a desintegração dos corpos.
Tais concentradores solares têm o efeito colateral de afastar outras aves que se alimentavam dos corpos, como os corvos, devido ao calor extremo nas torres. Também não funcionam durante os dias nublados e chuvosos. Assim, uma "operação" que levaria apenas algumas horas para um bando de abutres, leva agora semanas. Os corpos em lenta decomposição acabam por trazer muitos problemas para a área circundante devido ao cheiro exalado pelas torres e muitas tiveram que ser extintas.
O termo “Torre do Silêncio” é um neologismo atribuído a Robert Murphy, que em 1832, foi um tradutor a serviço do governo colonial britânico na Índia. Este termo nunca foi uma tradução literal, e sim uma forma "poética" usada para traduzir o nome do lugar. No Irão, antigamente, o islamismo proibia a dissecação de cadáveres, uma vez que esta era considerada uma forma de mutilação. Como não havia cadáveres para estudo disponíveis para as escolas de medicina, os corpos eram roubados dos dakhmas, causando indignação da comunidade zoroastrista.
terça-feira, 14 de novembro de 2017
Dasht-e Kavir, Irão
The world is like an eye, a beard, a spot of beauty and eyebrow, Where each thing is neatly in place.
Hafez, Poeta Persa (1315-1390), Shiraz
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
Praça Jemaa el-Fna, Marraquexe, Marrocos
Na praça Djemaa el Fna, o vibrante centro mágico de Marraquexe são contadas histórias para o halqa - os ouvintes que se reúnem para ouvir contos transmitidos por gerações de contadores de histórias, histórias que reúnem e perpetuam as tradições e a magia de Marrocos.
Em maio de 2001, a UNESCO honrou essa tradição cultural e ajudou a consolidar sua preservação quando proclamou a atividade criativa em Djemaa el Fna como "obra-prima do patrimônio oral e intangível da humanidade". A falta de estruturas institucionais, no entanto, significa que tais formas de arte tradicional em Marrocos, como em muitos outros países, estão em uma situação bastante precária.
Os contadores de histórias de Djemaa el Fna muitas vezes "desfiam" seus contos a um ritmo tremendo, mas é sempre no dialeto marroquino, destinado a uma audiência local que está disposta a reunir-se noite após noite na praça iluminada, aguardando ansiosamente a próxima parcela da história do dia anterior .
Jardin Majorelle, Marrakech
Era dali. Iria a lugar nenhum porque nunca se levaria por completo. Nunca iria.
Valter Hugo Mãe in "Homens Imprudentemente Poéticos"
Alcoi, "entre moros i cristians"
DIFÍCIL ÉS DONAR UN NOM A CADA COSA...
Difícil és donar un nom a cada cosa
mentre els camins resulten pedregosos i infausts.
Mire el paisatge august dels conreus profitosos
i sols recullc un poc de mots elementals:
poma, pruna, taronja, tomaca i albergínia
i un etcètera patri d’altres fruits naturals.
Del blau mediterrani: lluç, tonyina, llobarro,
clòtxina, déntol, sípia, sardina i calamar.
L’ampla geografia del país és nutrícia,
com l’antiga deessa de malucs i pits grans.
Versaires que la canten cauen al dèdal pànic
pel polícrom barroc que els atorrolla el cant.
De bell nou tornarem al clam admiratiu
amb un intent feréstec d’ésser originals.
Joan VALLS JORDÀ, Obra poètica, Ed. Instituto de Estudios Alicantinos, Alacant, 1981.
Bassin Ménara, Marraquexe, Marrocos
Originalmente, o "lago" foi criado para irrigar o grande olival dos jardins de Ménara. Actualmente ainda cumpre esta função, como no seu início, há mais de 700 anos, transportando a água das montanhas do Atlas distantes 30 kms. Os jardins foram plantados pela dinastia Almohad.
Tolomddima, Madagáscar
(...) há outras que são simplesmente pessoas, e se calhar isso é o mais pernicioso do mundo, de todas as galáxias conhecidas e desconhecidas, o facto de sermos pessoas.
Afonso Cruz in "Nem Todas as Baleias Voam"
sexta-feira, 23 de junho de 2017
Comboio Fianarantsoa-Manakara, Madagáscar
A força do hálito
A força do hálito é como o que tem que ser.
E o que tem que ser tem muita força.
E o que tem que ser tem muita força.
Vai (ou vem) um sujeito, abre a boca e eis que a gente,
que no fundo é sempre a mesma,
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado,
que no fundo é sempre o mesmo.
que no fundo é sempre a mesma,
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado,
que no fundo é sempre o mesmo.
Sovacos pompeando vinagres e bafios,
não são nada --bah...-- em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.
não são nada --bah...-- em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.
"Ai onde transpira agora
o bom sovaco de outrora!"
o bom sovaco de outrora!"
Virilhas colaborando com parentesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito) maravirilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos, nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.
são autênticas (e sem hálito) maravirilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos, nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.
Mas o mau hálito é pior que a palavra
sobretudo se não for da tua lavra.
sobretudo se não for da tua lavra.
Da malvada, da cárie ou, meudeus, do infinito,
o mau hálito é sempre, na narina,
como o baudelaireano, desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria.
o mau hálito é sempre, na narina,
como o baudelaireano, desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria.
Alexandre O'Neill (1969)
quinta-feira, 22 de junho de 2017
Arrozal, Madagáscar
O enforcado
No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.
o enforcado.
Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.
suas botas recusam o chão que o rejeitou.
Dele sobra o cajado.
Alexandre O'Neill (1979)
quinta-feira, 8 de junho de 2017
L'allée des baobabs. Morondava, Madagáscar
Poema Das Árvores
As árvores crescem sós. E a sós florescem.
Começam por ser nada. Pouco a pouco
se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.
Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,
e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.
Depois por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,
e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,
e os frutos dão sementes,
e as sementes preparam novas árvores.
E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.
Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.
Sós.
De dia e de noite.
Sempre sós.
Os animais são outra coisa.
Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,
fazem amor e ódio, e vão à vida
como se nada fosse.
As árvores, não.
Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente.
Não pensam, não suspiram, não se queixam.
Estendem os braços como se implorassem;
com o vento soltam ais como se suspirassem;
e gemem, mas a queixa não é sua.
Sós, sempre sós.
Nas planícies, nos montes, nas florestas,
a crescer e a florir sem consciência.
Virtude vegetal viver a sós
e entretanto dar flores.
António Gedeão
Rio Tsiribihina, Madagáscar
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Se te queres matar, porque não te queres matar?
Ah, aproveita! que eu, que tanto amo a morte e a vida,
Se ousasse matar-me, também me mataria...
Ah, se ousares, ousa!
De que te serve o quadro sucessivo das imagens externas
A que chamamos o mundo?
A cinematografia das horas representadas
Por actores de convenções e poses determinadas,
O circo policromo do nosso dinamismo sem fim?
De que te serve o teu mundo interior que desconheces?
Talvez, matando-te, o conheças finalmente...
Talvez, acabando, comeces...
E de qualquer forma, se te cansa seres,
Ah, cansa-te nobremente,
E não cantes, como eu, a vida por bebedeira,
Não saúdes como eu a morte em literatura!
Fazes falta? Ó sombra fútil chamada gente!
Ninguém faz falta; não fazes falta a ninguém...
Sem ti correrá tudo sem ti.
Talvez seja pior para outros existires que matares-te...
Talvez peses mais durando, que deixando de durar...
A mágoa dos outros?... Tens remorso adiantado
De que te chorem?
Descansa: pouco te chorarão...
O impulso vital apaga as lágrimas pouco a pouco,
Quando não são de coisas nossas,
Quando são do que acontece aos outros, sobretudo a morte,
Porque é a coisa depois da qual nada acontece aos outros...
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda
Do mistério e da falta da tua vida falada...
Depois o horror do caixão visível e material,
E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali.
Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas,
Lamentando a pena de teres morrido,
E tu mera causa ocasional daquela carpidação,
Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas...
Muito mais morto aqui que calculas,
Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova,
E depois o princípio da morte da tua memória.
Há primeiro em todos um alívio
Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido...
Depois a conversa aligeira-se quotidianamente,
E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste.
Só és lembrado em duas datas, aniversariamente:
Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste;
Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada.
Duas vezes no ano pensam em ti.
Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram,
E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
Encara-te a frio, e encara a frio o que somos...
Se queres matar-te, mata-te...
Não tenhas escrúpulos morais, receios de inteligência!...
Que escrúpulos ou receios tem a mecânica da vida?
Que escrúpulos químicos tem o impulso que gera
As seivas, e a circulação do sangue, e o amor?
Que memória dos outros tem o ritmo alegre da vida?
Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem,
Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?
És importante para ti, porque é a ti que te sentes.
És tudo para ti, porque para ti és o universo,
E o próprio universo e os outros
Satélites da tua subjectividade objectiva.
És importante para ti porque só tu és importante para ti.
E se és assim, ó mito, não serão os outros assim?
Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
Mas o que é conhecido? O que é que tu conheces,
Para que chames desconhecido a qualquer coisa em especial?
Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
Dispersa-te, sistema físico-químico
De células nocturnamente conscientes
Pela nocturna consciência da inconsciência dos corpos,
Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
Pela névoa atómica das coisas,
Pelas paredes turbilhonantes
Do vácuo dinâmico do mundo...
26-4-1926
Poesias de Álvaro de Campos
Sahara, Marrocos
Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'
Entardecer em Antananarivo, Madagáscar
O Destino Desconhece a Linha Recta
O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, não conhece a linha recta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente em função de um resultado final, portanto conhecido, é imaginar o destino como uma flecha apontada directamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se. Tanto assim que antes de converter Rimbaud em traficante de armas e marfim em Africa, o obrigou a ser poeta em Paris.
José Saramago, in 'Cadernos de Lanzarote (1994)'
Florença, Galleria degli Uffizi
Abre a mente ao que eu te revelo
e retém bem o que eu te digo, pois não é ciência
ouvir sem reter o que se escuta.
Dante Alighieri in "Paraíso"
Pisa, Toscânia, Itália
A torre de Pisa
A torre de Pisa
em Itália
como qualquer torre
não fala
Inclina-se
para a frente
e cumprimenta
a gente
Não é como
a torre de Belém
que não cumprimenta
ninguém
antónio josé forte
in "uma rosa na tromba de um elefante"
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